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Pesquisa da Natura e da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de SP revela a relação entre degradação ambiental e saúde mental no Brasil.
A solastalgia, conceito que descreve a angústia provocada por mudanças no ambiente natural, impacta 40% da população brasileira, conforme um estudo inédito realizado pela Natura em colaboração com a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP). A pesquisa, que contou com a participação de aproximadamente 1.750 pessoas de diversas regiões do país, busca medir o sofrimento ambiental e suas consequências na saúde mental.
Os dados revelam que quase metade dos participantes (44,7%) apresentou níveis de ansiedade acima do limiar clínico. A palavra "solastalgia" combina o latim "sōlācium" (consolo) e o grego "álgos" (dor), refletindo a dor de testemunhar a degradação do lar. O termo foi introduzido pelo filósofo Glenn Albrecht em 2003, na Austrália, e é utilizado para descrever o sofrimento gerado por impactos ambientais, como mineração e desastres naturais.
Lucas Murrins, psiquiatra da FCMSCSP e um dos autores do estudo, destaca que a solastalgia não é um diagnóstico formal, mas uma forma de sofrimento relacionada ao ambiente, que pode variar desde a perda de um jardim até a destruição de uma casa por inundações. Embora o Brasil seja um dos países mais ricos em biodiversidade, até agora não existia uma ferramenta validada em português para medir a solastalgia.
A pesquisa adaptou uma escala australiana para o contexto brasileiro, chamada BSS-Br (Escala Breve de Solastalgia – versão brasileira). A expectativa é que essa ferramenta ajude a monitorar a saúde mental em regiões afetadas pela degradação ambiental.
A investigação foi realizada em duas etapas: a primeira focou na adaptação cultural da escala e a segunda na aplicação do questionário a 1.752 participantes de todos os estados. As perguntas abordavam preocupações sobre mudanças ambientais e seu impacto no estilo de vida. O uso de um chatbot facilitou o engajamento dos voluntários.
Os resultados mostraram que 30% dos participantes perceberam mudanças ambientais em suas regiões. Além disso, 44,8% apresentaram ansiedade moderada e 47,8% relataram sintomas de depressão, com 63,2% abaixo do critério de bem-estar da OMS. Murrins observa que a solastalgia se insere em um contexto mais amplo de saúde emocional, onde os impactos ambientais influenciam o bem-estar psicológico.
A pesquisa ainda identificou que a solastalgia pode ser percebida por características vocais, com a análise de parâmetros acústicos indicando uma relação entre sofrimento ambiental e expressão vocal. Essa descoberta abre possibilidades para novas abordagens no monitoramento da saúde mental, especialmente em populações vulneráveis.
Embora se esperasse que a região Nordeste, marcada por secas e desmatamento, apresentasse os maiores índices de solastalgia, os resultados mostraram que participantes do Sul e Sudeste relataram níveis mais altos de sofrimento. Isso pode estar relacionado à percepção ambiental em áreas urbanas, onde a degradação é mais visível.
Contrariando a ideia de que afastar-se da natureza poderia ajudar a evitar a angústia, o estudo sugere que a conexão com o meio ambiente pode aliviar a solastalgia. Participantes que frequentam parques e cuidam de plantas ou animais de estimação apresentaram melhores indicadores de bem-estar. O estudo destaca que a busca por conexão com a natureza pode servir como um "amortecedor" contra o mal-estar causado pela degradação ambiental.
Manuel Rios, diretor da Natura, enfatiza que a regeneração ambiental é essencial não apenas para restaurar biomas, mas também para promover o bem-estar emocional das comunidades. O estudo faz parte do Projeto Apoena, uma iniciativa que visa integrar saúde e meio ambiente.
Fonte: VEJA
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