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O impacto da queda de patentes da semaglutida na Índia e no Brasil

O impacto da queda de patentes da semaglutida na Índia e no Brasil

Por Redação

26/10/2026 às 08:35

O impacto da queda de patentes da semaglutida na Índia e no Brasil

Foto: VEJA

A liberação da patente da semaglutida na Índia reduziu drasticamente os preços e aumentou as vendas. O Brasil começa a experienciar uma situação semelhante.

No mês de março de 2026, a patente da semaglutida, ingrediente ativo do Ozempic e do Wegovy, expirou na Índia, permitindo que cerca de 40 laboratórios locais lançassem suas versões de forma simultânea, em diferentes formatos como canetas, frascos e comprimidos. Este fenômeno foi documentado em uma revisão publicada na revista médica Diabetes Care, da Associação Americana de Diabetes, realizada por especialistas da Fundação de Pesquisa em Diabetes de Madras.

Atualmente, o custo mensal da semaglutida genérica na Índia varia entre 2.000 e 3.500 rúpias, equivalente a aproximadamente 22 a 36 dólares. Há canetas descartáveis com preços em torno de 1.800 rúpias, ou cerca de 20 dólares, e frascos por valores ainda menores. Em contraste, nos Estados Unidos, o preço pode ultrapassar 1.000 dólares mensais. A própria fabricante original, a dinamarquesa Novo Nordisk, teve que reduzir seus preços no mercado norte-americano.

Esse cenário gerou um aumento significativo na demanda. Em fevereiro, antes da introdução dos genéricos, foram vendidas 25 mil unidades de semaglutida na Índia. Já em abril, esse número saltou para 170 mil, representando um crescimento de seis a sete vezes em apenas dois meses.

Além da semaglutida, outros medicamentos modernos para diabetes também tiveram seus preços reduzidos em até 90% com a chegada das versões genéricas. Nas farmácias populares do governo indiano, por exemplo, os preços da sitagliptina e da empagliflozina genéricas variam de 1 a 2 dólares por mês, enquanto nos Estados Unidos esses mesmos medicamentos custam entre 204 e 258 dólares.

Três fatores principais contribuem para essa diferença de preços: a escala de produção da Índia, que responde por cerca de 20% do mercado mundial de genéricos; a legislação indiana sobre patentes, que impede a renovação delas sem comprovação de benefício terapêutico; e o controle de preços pelo governo, que estabelece tetos para medicamentos essenciais.

A renda média das famílias indianas varia entre 133 e 292 dólares mensais, tornando mesmo as versões genéricas de semaglutida um gasto significativo. Apesar de a produção ter aumentado, o acesso ainda é restrito, concentrando-se nas áreas urbanas e entre aqueles que podem arcar com os custos, já que os planos de saúde públicos raramente cobrem medicamentos de uso contínuo fora do ambiente hospitalar.

A qualidade dos medicamentos também é uma preocupação, uma vez que com tantos fabricantes, podem ocorrer variações entre os produtos, dificultando a manutenção da farmacovigilância. Por isso, é essencial que, ao se reduzir preços, a qualidade dos medicamentos não seja comprometida.

No Brasil, a patente da semaglutida também expirou em março de 2026. Em maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o Ozivy, uma versão sintética da semaglutida fabricada pela EMS, que chegou ao mercado em junho custando cerca de 333 reais a caneta. Em agosto, os dois primeiros genéricos foram lançados, também pela EMS e pela Germed. Segundo a legislação brasileira, o preço dos genéricos deve ser pelo menos 35% inferior ao do medicamento de referência. O Ozempic, por exemplo, tem um preço médio em torno de 1.000 reais.

Uma grande rede de farmácias relatou uma redução de 50% no preço médio da semaglutida no segundo trimestre, acompanhada de um aumento de 155% nas vendas. Apesar de ser um progresso, essa situação ainda está distante da realidade indiana.

O Brasil possui estruturas similares às da Índia, como a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, que estabelece tetos de preços, e o programa Farmácia Popular. No entanto, ainda falta a inclusão desses medicamentos na rede pública, onde a maioria dos brasileiros com diabetes se encontra.

A principal lição é que a inovação por si só não garante o acesso. O valor real de um medicamento depende de sua disponibilidade para aqueles que realmente necessitam. E, embora a semaglutida possa tornar-se mais acessível, ela continuará exigindo receita e acompanhamento médico para seu uso.

Fonte: VEJA

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